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Como estudar para concurso: o que a pesquisa mostra que funciona

Atualizado em 4 de agosto de 2026 · ~9 min de leitura

Reler, grifar e resumir são as três coisas que quase todo concurseiro faz. São também as três que a pesquisa menos sustenta. Abaixo está o que funciona, com o número e o link de cada estudo.

Quase metade não aparece no dia da prova

42,8%de abstenção na prova objetiva do CNU 2025. Foram 761.545 inscritos, 436.582 presentes e 324.971 ausentes, segundo o Ministério da Gestão.

Na edição anterior foi pior. O CNU 2024 teve 2,14 milhões de inscritos para 6.640 vagas, e 970.037 pessoas fizeram a prova. Mais da metade dos inscritos não sentou na cadeira.

Guarde esse número antes de escolher apostila. A concorrência real é bem menor que a do anúncio, e boa parte da eliminação acontece antes da prova começar. Ninguém desiste por falta de PDF. Desiste porque a rotina não parou de pé.

Este guia é sobre as duas coisas que decidem isso: o que a pesquisa mostra que funciona dentro do estudo, e o que só parece funcionar.

Quanto tempo leva, na melhor estimativa disponível

Não existe estatística oficial de tempo até a aprovação. Nenhum órgão publica isso. Quem promete um prazo está chutando.

O que existe é pesquisa com concurseiro. O Censo dos Concursos Públicos 2025, do Qconcursos, ouviu 13.128 pessoas até 31 de outubro de 2025.

~2 anosde tempo de preparação declarado, na média dos 13.128 respondentes do Censo dos Concursos 2025. 36,6% deles disseram estudar há mais de dois anos.

Esse número precisa de duas ressalvas para não virar mentira. Ele é tempo de preparação declarado por quem ainda está estudando, e não tempo até passar. E quem responde pesquisa dentro de uma plataforma de questões já é mais engajado que o concurseiro médio.

Mesmo assim serve como ordem de grandeza, que é o que você precisa para planejar: pense em anos, não em meses. Prazo menor existe, mas é exceção, e exceção não é meta.

O que quase todo mundo faz, e por que não funciona

Karpicke, Butler e Roediger (2009) perguntaram a 177 universitários o que eles faziam quando estudavam sozinhos. Reler foi a estratégia mais citada, por 84% deles. Só 11% citaram se testar.

84% contra 11%estudantes que citaram reler como estratégia de estudo, contra os que citaram se testar. Karpicke, Butler e Roediger (2009).

Os autores chamam isso de ilusão de competência. Você relê, o texto fica familiar, e a familiaridade passa por domínio. Aí você fecha o assunto achando que aprendeu.

A sensação de ter aprendido e a chance de lembrar na prova são duas medidas diferentes. Elas costumam andar em direções opostas.

Das dez técnicas de estudo, duas passaram

Em 2013, cinco pesquisadores revisaram a literatura sobre dez técnicas de estudo e deram uma nota de utilidade a cada uma. O trabalho saiu na Psychological Science in the Public Interest e é a referência mais citada do assunto.

Duas ficaram com utilidade alta: praticar teste, que é resolver questão, e prática distribuída, que é espalhar a revisão ao longo do tempo. Ganharam a nota máxima por funcionarem em idades diferentes, matérias diferentes e níveis de base diferentes.

Cinco ficaram com utilidade baixa:

As três primeiras são exatamente o que quase todo concurseiro faz por padrão.

Reler dá uma sensação melhor e entrega menos

Roediger e Karpicke (2006) deram um texto a estudantes. Um grupo releu várias vezes. O outro leu menos e gastou o tempo tentando lembrar do conteúdo sem olhar.

Cinco minutos depois, quem releu ganhou: 83% contra 71%. Uma semana depois, virou.

61% contra 40%do texto lembrado uma semana depois. Quem treinou a lembrança contra quem releu. Roediger e Karpicke (2006).

O esforço gasto para chegar lá fecha o argumento. O grupo que treinou a lembrança leu o texto 3,4 vezes em média. O grupo que releu leu 14,2 vezes. Quatro vezes mais leitura, e menos texto na cabeça uma semana depois.

Repare no que isso faz com você. Nos primeiros minutos reler parece mesmo melhor, e é essa sensação que sustenta a estratégia errada por meses. Só que a prova não é cinco minutos depois. É em julho.

O tamanho do ganho de resolver questão

Uma meta-análise de 2017 juntou 272 efeitos, tirados de 188 experimentos, para medir quanto resolver questão adianta em comparação com estudar de novo o mesmo material.

0,51de tamanho de efeito para resolver questão contra reestudar o material. Contra não fazer nada, sobe para 0,93. Adesope, Trevisan e Sundararajan (2017).

Tamanho de efeito é a distância entre dois grupos, medida em desvios padrão. 0,51 é um ganho moderado e consistente, obtido trocando a forma de estudar e não a quantidade de horas.

A parte que interessa a concurseiro está no formato. Praticar com questão de múltipla escolha rendeu 0,70, contra 0,48 da questão dissertativa. É o formato da prova objetiva, que é o que decide quase todo concurso no Brasil.

O intervalo certo depende de quando é a sua prova

Espaçar a revisão é um dos achados mais sólidos da área. Cepeda e colegas (2006) reuniram 839 comparações, em 317 experimentos, dentro de 184 artigos.

A parte útil está no detalhe. O intervalo ideal entre uma revisão e outra não é fixo: ele cresce conforme cresce o tempo até a prova. Prova daqui a um mês pede um espaçamento. Prova daqui a oito meses pede outro, mais largo.

Quem revisa tudo toda semana gasta tempo com conteúdo que ainda está fresco. Quem só revisa na véspera revisa o que já evaporou. Na prática, é o que faz um mesmo assunto voltar em um dia, depois em três, depois em uma semana, depois em um mês. É a lógica do Anki e do algoritmo FSRS.

Misturar matérias atrapalha o treino e salva a prova

Rohrer e Taylor (2007) testaram duas formas de praticar problemas de matemática: em blocos, um tipo de cada vez, ou embaralhados.

Durante a sessão de treino, o grupo dos blocos acertou 91% e o embaralhado acertou 78%. Os próprios autores registram que essa diferença não foi estatisticamente significativa. No treino, os dois pareciam ir bem.

63% contra 20%de acerto no teste feito uma semana depois. Treino embaralhado contra treino em blocos. Rohrer e Taylor (2007), experimento 2.

A explicação é direta. Quando os problemas vêm todos do mesmo tipo, você não precisa decidir qual método usar, porque já sabe. A prova nunca avisa qual é o assunto da questão.

Estudar em blocos treina a execução. A prova cobra a escolha do método antes da execução.

Para concurso, é um argumento contra passar três semanas só em Direito Administrativo e não voltar ao assunto até a véspera.

O que fazer com isso na segunda-feira

Tudo acima cabe numa rotina simples. Ela não é bonita e não pede planilha.

Duas semanas antes da prova, faça uma prova inteira nas condições reais: relógio correndo, sem consulta, sem levantar. O simulado mostra onde o seu tempo vaza e como a sua cabeça se comporta na quarta hora seguida. Isso não dá para descobrir estudando.

Fontes

Todo número desta página saiu de um destes trabalhos. Os links vão para o artigo ou para a divulgação original, não para resumo de blog.

  1. Dunlosky, Rawson, Marsh, Nathan e Willingham (2013). Improving Students’ Learning With Effective Learning Techniques. Psychological Science in the Public Interest. É daqui que saem as notas das dez técnicas.
  2. Versão curta do mesmo trabalho, escrita pelo próprio Dunlosky: Strengthening the Student Toolbox (American Educator, 2013). Texto aberto.
  3. Roediger e Karpicke (2006). Test-Enhanced Learning: Taking Memory Tests Improves Long-Term Retention. Psychological Science. É daqui que saem os 61% contra 40% e as 3,4 contra 14,2 leituras.
  4. Karpicke, Butler e Roediger (2009). Metacognitive strategies in student learning: do students practise retrieval when they study on their own? Memory. É daqui que saem os 84% contra 11%. Texto completo aberto.
  5. Adesope, Trevisan e Sundararajan (2017). Rethinking the Use of Tests: A Meta-Analysis of Practice Testing. Review of Educational Research. É daqui que saem os tamanhos de efeito 0,51, 0,93, 0,70 e 0,48.
  6. Cepeda, Pashler, Vul, Wixted e Rohrer (2006). Distributed Practice in Verbal Recall Tasks: A Review and Quantitative Synthesis. Psychological Bulletin. É daqui que saem as 839 comparações.
  7. Rohrer e Taylor (2007). The Shuffling of Mathematics Problems Improves Learning. Instructional Science. É daqui que saem os 63% contra 20%, no experimento 2. Texto completo aberto.
  8. Censo dos Concursos Públicos 2025, do Qconcursos, com 13.128 respondentes até 31 de outubro de 2025. É daqui que saem o tempo de preparação e a frequência semanal de estudo.
  9. Agência Brasil (out/2025). CNU 2025 tem 42,8% de abstenção. Inscritos, presentes e ausentes da segunda edição.
  10. Agência Brasil (ago/2024). De 2,1 milhões de inscritos, cerca de 1 milhão fizeram as provas do CNU. Números da primeira edição.

Perguntas frequentes

Qual o melhor método para estudar para concurso público?

Resolver questão e espaçar a revisão. Em 2013, uma revisão publicada na Psychological Science in the Public Interest avaliou dez técnicas de estudo e deu nota alta de utilidade para duas: praticar teste, que é resolver questão, e prática distribuída, que é espalhar a revisão ao longo do tempo. Grifar, reler e resumir ficaram na nota baixa. Para concurso, some a isso o filtro por banca: cada banca tem manias próprias, e treinar na banca certa é treinar para a sua prova.

Quanto tempo leva para passar em um concurso?

Não existe estatística oficial disso, e quem promete um prazo está chutando. A melhor estimativa disponível vem do Censo dos Concursos Públicos 2025, do Qconcursos, com 13.128 respondentes: o tempo de preparação declarado ficou em torno de dois anos, e 36,6% disseram estudar há mais de dois anos. Leia com cuidado, porque isso é tempo de preparação de quem está estudando, e não tempo até a aprovação. Serve como ordem de grandeza: planeje em anos, e trate prazo menor como exceção, não como meta.

Quantas horas por dia preciso estudar para concurso?

Menos do que a internet costuma dizer, e em mais dias. No Censo dos Concursos 2025, 45,67% dos respondentes estudam de três a cinco vezes por semana e 35,5% estudam mais de cinco vezes. O que a pesquisa sustenta não é o total de horas, é a distribuição: a mesma quantidade de estudo rende mais espalhada em vários dias do que empilhada em um só. Uma hora todo dia bate oito horas no sábado, porque entre um sábado e outro você esquece a semana inteira.

Como montar um plano de estudos para concurso?

Comece pelo edital e escreva ao lado de cada disciplina quantas questões ela vale, porque é esse número que decide onde o seu tempo rende. Dentro de cada disciplina, use as provas anteriores da banca para achar o que cai sempre. Depois monte o ciclo com a revisão já embutida: o que você viu ontem, na semana passada e no mês passado volta hoje. E reserve todo dia um bloco de questões da banca, que é a parte com maior evidência de retenção.

É possível estudar para concurso sem cursinho?

Dá. O edital é público, a lei está de graça no site do Planalto e as provas anteriores também são públicas. O cursinho organiza o material e poupa o seu tempo de garimpo, e isso tem valor real. Mas as duas técnicas com melhor evidência, resolver questão e espaçar a revisão, não dependem de aula nenhuma: dependem de você resolver, errar e voltar. Falta de dinheiro não é o que separa você da aprovação.

O que é repetição espaçada e como ela ajuda a passar em concurso?

É revisar em intervalos que aumentam (um dia, três dias, uma semana, um mês) em vez de reler o mesmo texto várias vezes seguidas. A ideia é rever pouco antes de esquecer. A revisão de Cepeda e colegas (2006), com 839 comparações em 317 experimentos, mostrou que espaçar retém mais que concentrar, e que o intervalo ideal cresce conforme o teste fica mais distante. É a lógica do Anki e do algoritmo FSRS. Para concurso ela cai bem porque o conteúdo é grande e a prova costuma estar a meses de distância.

O Nominato é isso virado em aplicativo: questão de prova real, todo dia, na ordem que o edital cobra.

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